O FID:RIO e #LINK:RIO 2026 reúnem três propostas que interrogam a relação entre as imagens, a memória e o poder. Apresentadas na Cinemateca do MAM e no Centro Cultural Justiça Federal, essas obras partem de contextos distintos — a Cuba contemporânea, o Julgamento das Juntas Militares na Argentina e o pensamento cinematográfico de Jean-Luc Godard —, mas convergem em uma mesma pergunta: o que pode uma imagem diante das forças que tentam apagar, dominar ou deformar a história?
As imagens aqui reunidas não aparecem como registros neutros. São territórios de conflito. Podem se transformar em prova judicial, testemunho, carta política, arquivo clandestino, instrumento de propaganda ou gesto de resistência. Olhar não significa apenas receber uma informação: significa assumir uma responsabilidade diante daquilo que é mostrado e também de tudo o que permanece fora do enquadramento.
Na Cinemateca do MAM, Mirante transforma materiais registrados durante uma filmagem em Cuba em uma experiência autônoma sobre uma ilha que resiste. No Centro Cultural Justiça Federal, a mostra vinculada a El juicio traz de volta ao presente as vozes e as imagens do processo que julgou os responsáveis pela última ditadura argentina. Também no CCJF, o programa dedicado a Godard propõe uma reflexão sobre a guerra, a violência e a ética da representação por meio de quatro curtas-metragens realizados entre 1991 e 2023.
As sedes não funcionam apenas como espaços de exibição. A Cinemateca do MAM, lugar de preservação e pensamento cinematográfico, recebe uma obra construída com fragmentos de uma experiência ainda em aberto. O CCJF, edifício historicamente associado à administração da justiça, acolhe imagens que perguntam como uma sociedade julga o seu passado e como deve olhar para as violências do presente.
As três propostas constroem, assim, um percurso entre soberania, justiça e responsabilidade visual. Diante dos apagões, do terrorismo de Estado, da guerra e da circulação incessante de imagens, o cinema e o audiovisual aparecem como formas de preservar aquilo que esteve prestes a desaparecer.
As imagens podem ser ocultadas, manipuladas, descontextualizadas ou condenadas ao esquecimento. Mas também podem sobreviver, viajar, reaparecer e recuperar a sua potência. Enquanto existirem corpos dispostos a preservá-las, escutá-las e confrontá-las, haverá imagens que não se apagam.
Idea Original: Walter Tiepelmann
Curadoria: Ygor Gama, Walter Tiepelmann
Produção: Celina Torrealba, Mario Durrieu
O JULGAMENTO
Eu arquivo como teste e memória.
Em 1985, o Julgamento das Juntas Militares transformou as palavras de sobreviventes e familiares em um protesto público contra os responsáveis pelo terrorismo de Estado na Argentina. Perante dois juízes, vozes reconstroem sequestros, torturas, desaparecimentos e assassinatos que o aparato repressivo tentou encobrir.
Uma instalação ligada ao Julgamento , de Ulisses de la Ordem, integra o arquivo audiovisual e a história de sua preservação. As imagens do processo não sobreviverão naturalmente: precisarão ser protegidas contra o risco de destruição, ocultação e fragmentação. O arquivo é, portanto, apresentado não como uma coleção passiva de documentos, mas como o resultado de uma decisão política.
Cada dispositivo contém uma experiência individual, mas também integra uma memória coletiva. Preservamos os rostos, as vozes, as pausas e os silêncios que um resumo histórico pode substituir: a presença concreta daqueles que vivenciam a violência e decidem narrá-la.
Ao transportar esses registros para o espaço expositivo, a instalação modifica nossa relação com eles. Não se trata apenas de acompanhar o desenvolvimento de uma obra, mas sim de identificar dois fragmentos, escutar as vozes e reconstruir a materialidade de um arquivo danificado.
A exposição é apresentada no Centro Cultural Justiça Federal, um espaço que se relaciona com a história da justiça brasileira em termos amplos e com o significado da obra. As imagens do tribunal argentino adentram um tribunal no Brasil e estabelecem um diálogo entre duas sociedades devastadas por ditaduras, violência estatal e contínuas disputas em torno da memória.
Menos de cinquenta anos após o golpe de Estado de 1976 na Argentina, revisitar essas imagens não constitui um mero gesto comemorativo nem uma memória datada do passado. Há um alerta sobre a fragilidade das instituições democráticas e a facilidade com que discursos de negação podem ressurgir.
O julgamento nos diz que memória, verdade e justiça não são conquistas definitivas. Elas precisam de arquivos que sobrevivam, pessoas que as protejam e novas gerações dispostas a senti-las novamente. Isso demonstra que observar as imagens significa também assumir a responsabilidade pela história.
Centro Cultural Justiça Federal – Terça a Domingo, das 11h às 19h. – 24 de julho a 2 de agosto de 2026.
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