06/08 al 16/08 de 2026

24/07 al 02/08 de 2026

O FID:RIO e #LINK:RIO 2026 reúnem três propostas que interrogam a relação entre as imagens, a memória e o poder. Apresentadas na Cinemateca do MAM e no Centro Cultural Justiça Federal, essas obras partem de contextos distintos — a Cuba contemporânea, o Julgamento das Juntas Militares na Argentina e o pensamento cinematográfico de Jean-Luc Godard —, mas convergem em uma mesma pergunta: o que pode uma imagem diante das forças que tentam apagar, dominar ou deformar a história?
As imagens aqui reunidas não aparecem como registros neutros. São territórios de conflito. Podem se transformar em prova judicial, testemunho, carta política, arquivo clandestino, instrumento de propaganda ou gesto de resistência. Olhar não significa apenas receber uma informação: significa assumir uma responsabilidade diante daquilo que é mostrado e também de tudo o que permanece fora do enquadramento.
Na Cinemateca do MAM, Mirante transforma materiais registrados durante uma filmagem em Cuba em uma experiência autônoma sobre uma ilha que resiste. No Centro Cultural Justiça Federal, a mostra vinculada a El juicio traz de volta ao presente as vozes e as imagens do processo que julgou os responsáveis pela última ditadura argentina. Também no CCJF, o programa dedicado a Godard propõe uma reflexão sobre a guerra, a violência e a ética da representação por meio de quatro curtas-metragens realizados entre 1991 e 2023.
As sedes não funcionam apenas como espaços de exibição. A Cinemateca do MAM, lugar de preservação e pensamento cinematográfico, recebe uma obra construída com fragmentos de uma experiência ainda em aberto. O CCJF, edifício historicamente associado à administração da justiça, acolhe imagens que perguntam como uma sociedade julga o seu passado e como deve olhar para as violências do presente.
As três propostas constroem, assim, um percurso entre soberania, justiça e responsabilidade visual. Diante dos apagões, do terrorismo de Estado, da guerra e da circulação incessante de imagens, o cinema e o audiovisual aparecem como formas de preservar aquilo que esteve prestes a desaparecer.
As imagens podem ser ocultadas, manipuladas, descontextualizadas ou condenadas ao esquecimento. Mas também podem sobreviver, viajar, reaparecer e recuperar a sua potência. Enquanto existirem corpos dispostos a preservá-las, escutá-las e confrontá-las, haverá imagens que não se apagam.

Idea Original: Walter Tiepelmann
Curadoria: Ygor Gama, Walter Tiepelmann
Produção: Celina Torrealba, Mario Durrieu

IMAGENS EM GUERRA, GUERRAS DE IMAGENS

A responsabilidade de olhar

Centro Cultural Justiça Federal

Para Jean-Luc Godard, as imagens nunca foram inocentes. Cada enquadramento estabelece uma posição; cada montagem constrói uma relação entre os acontecimentos; cada forma de mostrar o mundo participa de uma disputa política.
Este programa reúne quatro curtas-metragens realizados entre 1991 e 2023:Pour Thomas Wainggai, codirigido com Anne-Marie Miéville; Je vous salue, Sarajevo; Prière pour refusniks; e Film annonce du film qui n’existera jamais: «Drôles de guerres». As obras constroem um percurso que vai da carta política à fotografia de guerra, da desobediência ao arquivo e ao testamento visual.

Em Pour Thomas Wainggai, a forma da carta cinematográfica transforma-se em uma intervenção contra o esquecimento. A imagem não pretende informar a partir de uma suposta neutralidade: dirige-se a uma situação concreta de violência política e exige uma tomada de posição.

Je vous salue, Sarajevo parte de uma fotografia da guerra da Bósnia. Godard fragmenta a imagem, percorre-a e a reorganiza por meio da voz e da montagem. A fotografia deixa de ser um documento transparente para se transformar em uma cena moral na qual estão implicadas a guerra, a Europa, a cultura e o olhar do espectador.

Em Prière pour refusniks, a reflexão se desloca para o ato de se recusar a obedecer. As cartas cinematográficas dirigidas a soldados israelenses presos por rejeitarem sua participação nos territórios ocupados introduzem a desobediência como uma forma de responsabilidade. A pergunta já não é apenas como olhar para a violência, mas como decidir não participar dela.

O programa se encerra com Film annonce du film qui n’existera jamais: «Drôles de guerres», último gesto cinematográfico de Godard. A obra reúne desenhos, páginas, vozes, fotografias, arquivos e colagens que já não anunciam um filme futuro: tornam-se elas mesmas a matéria de um filme impossível e de um pensamento ainda em movimento.
Mais do que uma homenagem, Imagens em guerra, guerras de imagens propõe um exercício de desmontagem da visão. Godard não convida a contemplar a violência, mas a interrogar a maneira como ela é produzida, transmitida e consumida.
Em um presente saturado de telas, propaganda e circulação imediata, essas quatro obras preservam uma força urgente. Elas nos recordam que toda imagem seleciona, exclui e organiza o mundo, e que olhar criticamente significa perguntar quem produz as imagens, de onde elas circulam e a quais interesses servem.
No CCJF, o programa funciona como uma bússola ética para o conjunto das mostras: diante da guerra transformada em espetáculo, o cinema ainda pode interromper o olhar automático, devolver conflito às imagens e nos obrigar a assumir nossa responsabilidade como espectadores.

CCJF – Sábado 25 JUL . 16h

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