Pela primeira vez (a trabalho) na cidade, renomada cineasta argentina participa da segunda edição do Festival Internacional de Artes e Cinema de Não Ficção do Rio de Janeiro
Umas das figuras centrais do Novo Cinema Argentino, a cineasta, roteirista e produtora Lucrecia Martel vem pela primeira vez a trabalho ao Rio de Janeiro para participar do FID:RIO – Festival Internacional de Artes e Cinema de Não Ficção do Rio de Janeiro.
Martel conquistou relevância mundial ao subverter convenções narrativas, priorizando uma atmosfera sensorial e sonora densa em vez de roteiros lineares. No FID:RIO, ela vai apresentar seu mais recente filme, o premiado documentário “Nuestra Tierra” (Nossa Terra) — lançado ano passado em pré-estreia mundial no Festival de Veneza — em sessão única no dia 28 de julho, no Estação Claro Rio, em Botafogo, um dos sete espaços culturais cariocas que recebe a programação do festival. Após a sessão, haverá um bate-papo entre a cineasta e o público.
No dia seguinte (29/7), Martel vai conduzir uma masterclass gratuita no Teatro Sesc Ginástico, no Centro da cidade, em que compartilhará com o público do #LINK:RIO — braço do FID:RIO voltado para atividades formativas e mercado —, reflexões sobre criação, som, imagem, narrativa e os desafios do fazer cinematográfico. A sessão tem mediação do cineasta Eduardo Valente.
Reconhecida como uma das grandes autoras do cinema contemporâneo, Lucrecia Martel construiu uma obra que expandiu as possibilidades da linguagem cinematográfica. Seus filmes — como “La Ciénaga” (O Pântano, de 2021), “La Niña Santa” (A Menina Santa, de 2004), “La mujer sin cabeza” (A Mulher sem Cabeça, de 2008) e “Zama” (2017) — marcaram profundamente o cinema das últimas décadas. Sua cinematografia explora as feridas abertas da colonização, o declínio da burguesia e o racismo estrutural na Argentina com um olhar quase antropológico e profundamente incômodo.
NUESTRA TIERRA
Após um hiato de oito anos, Martel lançou, no ano passado, seu primeiro longa-metragem de não ficção. Vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival de Londres, “Nuestra Tierra” investiga o assassinato do líder indígena Javier Chocobar, em 2009, durante um conflito pela posse de terras da comunidade Chuschagasta, na província de Tucumán, no norte da Argentina.
O julgamento do crime torna-se o eixo da narrativa, mas nunca seu único horizonte. O que interessa a Martel não é apenas reconstruir um caso judicial, mas compreender as estruturas históricas que tornaram essa violência possível. O filme — também vencedor do Prêmio Films After Tomorrow no Festival de Locarno, na Suíça, em 2025 — reflete sobre a luta por terras ancestrais e o legado de 500 anos de colonialismo.
À medida que o processo avança, o filme revela um sistema de expropriação, apagamento e violência que atravessa séculos. Testemunhos, registros do julgamento, arquivos históricos e a presença constante da paisagem constroem uma reflexão sobre a persistência do colonialismo e sobre a disputa pelos modos de narrar a história.
Como em toda a filmografia de Martel, o som ocupa um lugar central. As vozes, os silêncios, o vento, a terra e a distância entre aquilo que vemos e aquilo que ouvimos produzem uma experiência sensorial que vai muito além do documentário de denúncia. O filme não busca demonstrar uma tese; convida o espectador a habitar um território e a perceber as camadas de violência que continuam inscritas nele.
Mais do que um filme sobre um assassinato, “Nuestra Tierra” é uma reflexão sobre quem tem o direito de contar a história de um território e sobre as formas pelas quais o cinema pode devolver visibilidade às vozes historicamente silenciadas. Ao transformar um julgamento em uma investigação sobre memória, justiça e colonialismo, Lucrecia Martel reafirma a coerência de uma obra que, desde seu primeiro filme, interroga as estruturas invisíveis do poder.
O documentário marca o retorno triunfal da cineasta, reafirmando sua maestria em transformar questões políticas urgentes em experiências cinematográficas imersivas e inesquecíveis.
Masterclass com Lucrecia Martel
Data: 29 de julho (quarta-feira), das 16h às 19h
Local: Teatro Sesc Ginástico (Av. Graça Aranha, 187 – Centro)
Ingressos: entrada franca – distribuição de ingressos a partir das 15h
Classificação indicativa: livre
“Nuestra Tierra”
Apresentação do novo filme por Lucrecia Martel, seguida de conversa com o público.
Data: 28 de julho (terça-feira), às 20h30
Local: Estação Claro Rio (Rua Voluntários da Pátria, 35 – Botafogo)
Ingressos: R$ 35 (inteira) e R$ 17,50 (meia)
Duração: 124 min. (filme)
Classificação indicativa: 14 anos.